Morte de bebês no Getulinho, em Niterói, põe eficiência da unidade em ‘jogo’

Três crianças, três famílias e uma dor que não dá para se contar em números. A morte dos bebês que estavam sob os cuidados médicos no Hospital Municipal Getúlio Vargas (Getulinho), localizado no bairro do Fonseca, em Niterói, gera medo e dúvidas para quem depende do hospital. Um lugar que tem 66 anos de serviços prestados à comunidade, com 7 mil atendimento mensais, sendo 60% de niteroienses e 40% gonçalenses, foi acusado de falhas e vidas foram perdidas.

Até o momento, três casos de mortes de crianças ganharam repercussão e geraram comoção, mas pode ainda haver outros casos como estes no histórico da unidade. E a pergunta que fica é: Como um lugar de confiança da população se tornou um hospital de referência em mortes de crianças?

Juliana Duarte, 6 meses, faleceu no dia 28 de agosto em decorrência do erro de uma enfermeira que não soube verificar adequadamente a temperatura da água para banha-la. O resultado foi um momento de tortura para a criança e para a família, que sofreu por oito longos dias até ver a pequena Juliana descansar. Depois de quase dois meses do ocorrido, apenas uma enfermeira foi afastada da unidade. Já avó da bebê, Adilene, relata que nem o nome da profissional a família conseguiu descobrir.

A mãe da bebê, Luara do Santos, 23 anos, tem uma outra filha e relata a dor que é ter que ouvir a filha mais velha chamar por Juliana. “Estamos ainda muito arrasados com o descuido que eles tiveram, até hoje estamos sofrendo pois é uma dor que não passa. Nossa filha todos os dias fala “mamãe, cadê minha irmã, mamãe?” E assim, todos os dias, a gente tem que explicar o que aconteceu com a irmã. Estamos até hoje esperando a justiça ser feita e outra, dinheiro nenhum vai trazer nossa filha de volta mas queremos justiça”, diz Luara.

A família entrou com um processo judicial contra o hospital e o caso segue em andamento. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) o Getulinho instaurou um processo de sindicância interna para apurar os fatos e foi concluído que a profissional usou técnica inadequada para aferição da temperatura da água do banho. Ela foi desligada do quadro de funcionários. “A principal causa da morte atestada pelo perito do Instituto Médico Legal foi pneumonia bilateral”, disse em nota a Secretaria.

Myrella Oliveira Ferreira tinha um ano quando foi levada por sua mãe, Scarlatt Oliveira Pralon, de 28 anos, para ser socorrida. Com fortes dores na barriga há dias e suspeita de bronquite, a bebê foi socorrido ao Getulinho para receber ajuda médica. Ela deu entrada no dia 8 de setembro deste ano e não saiu de lá com vida. A mãe da pequena relata que os médicas deram muitos remédios para sua filha e, já fragilizada, ela não teria aguentado. “Hoje era pra minha bebê estar comigo e não está por erro deles”, lamenta a mãe.

Pouco mais de um mês depois do ocorrido, Scarllet reuniu provas contra a unidade e revelou que também processou o hospital por negligência. O processo está nas mãos do advogado da família.

Ao contrário do caso da bebê Juliana, a administração do Getulinho não assumiu a responsabilidade e nem afastou nenhum funcionário envolvido no caso. Em nota, eles afirmam que não houve nenhum fato que sugerisse assistência inadequada por parte da equipe do hospital. “O atendimento às pacientes seguiu todos protocolos técnicos determinados pelo Ministério da Saúde e após a análise, ficou constatado que todas as condutas foram corretas.” disse em nota.

O caso mais recente foi a da bebê Mirela Lourenço, de apenas 7 meses de vida, morta no dia 7 de outubro, por uma injeção suspeita aplicada por funcionários da unidade, segundo os pais da menina. Thays Lourenço, 21 anos, e Lucas Gomes, 22, recorreram à emergência do Getulinho por duas vezes na tentativa de salvar a filha. Mas não foi possível. Poucas horas depois da internação, a bebê começou a ficar com o corpo roxo, uma reação à aplicação de uma injeção ainda não identificada.

Para os pais da pequena, Mirela morreu por negligência dos funcionários. Filha única, a mãe Thays segue arrasada com a perda. “Eu estou arrasada, até agora não consigo acreditar no que aconteceu, era minha única filha, dói só de lembrar. Eu ainda estou à espera de uma resposta”, diz Thays que afirmou ter ido à delegacia fazer o boletim de ocorrência.  “Eles ficaram de chamar os médicos envolvidos e ainda não me chamaram pra fazer outro depoimento”, conta ela.

A SMS também não assumiu a culpa pela morte de Mirela Lourenço. De acordo com a Secretaria, a pequena possuía calendário vacinal incompleto e foi vítima de choque séptico, provocada por um germe que é prevenível por meio de vacinação.

Enquanto isso, os relatos negativos sobre o hospital Getulinho não param de se multiplicar. A grande maioria das queixas é referente ao atendimento em si, seja por falha no atendimento inicial ou pela demora para conseguir receber um atendimento rápido e eficaz. O São Gonçalo questionou a unidade sobre os casos recentes e uma possível ineficiência dos funcionários da unidade para receber os pacientes. Também por meio de nota, a SMS garantiu que há uma comissão de óbitos em cada hospital do município que avalia cada caso de morte ocorrida na unidade, além do comitê de mortalidade infantil municipal.

“Quando há constatação de negligência médica, o profissional é demitido imediatamente. A SMS realiza periodicamente cursos de capacitação e atualização para seus profissionais.” garantiu a Secretaria.

Fonte: Jornal O São Gonçalo