Imagens mostram criminosos dando treinamento de guerrilha no Complexo da Maré

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FOTO PARA SITE MODELO (7)

Uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro que durou dois anos descobriu uma espécie de escola preparatória com táticas de guerrilha na Maré, um dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro, onde moram mais de 140 mil pessoas.

Lá vivem pais, mães, famílias, trabalhadores, estudantes e crianças. São as maiores vítimas dessa guerra.

O Fantástico obteve acesso, com exclusividade, ao material dessa investigação. Segundo a polícia, é o maior levantamento já feito sobre a atuação de três grupos criminosos, de traficantes e milicianos, que disputam o controle de territórios, de negócios lucrativos e de vidas.

“Eles matam mesmo. Se eles não forem com a cara deles, eles matam. Para botar uma barraca na feira tem que pagar. Se você quiser vender um salgadinho na rua, tem que pagar. Se não pagar, eles tomam, entendeu? Tudo lá é sobre isso”, conta um morador da Maré.

Foram centenas de horas de imagens usando drones que revelaram uma amostra do desafio da segurança pública no Rio de Janeiro e do terror diário enfrentado pelos moradores, seja dia ou noite.

Os exercícios que preparam traficantes para a guerra acontecem num lugar que poderia ser um centro de lazer para a comunidade. No entanto, a quadra de futebol e a piscina – de uso exclusivo dos criminosos – servem como campo de treinamento. Tudo isso ao lado de uma creche e cinco escolas.

“O momento que eles ficam próximos das escolas, eles ficam mais protegidos, já que a polícia vai ter maior dificuldade e até certo impedimento de atuar nessas regiões. A polícia não quer que nenhum inocente, principalmente criança, sofra um mal causado por esses traficantes”, relata o delegado Hilton Alonson.

Pelas imagens dos drones dá para ver que o local de treinamento é ainda mais estratégico, ao lado da Baía de Guanabara e a poucos metros das três principais vias expressas que cortam a cidade: avenida Brasil, Linha Amarela e Linha Vermelha. Tudo isso no caminho para o principal aeroporto do Rio, para uma universidade federal e onde também há um batalhão da Polícia Militar, instalado exatamente 20 anos atrás.

Nada disso, porém, impede os treinamentos frequentes.

Em uma das imagens capturadas pela polícia, é possível ver dois instrutores ensinando grupos de 15 a 20 homens, todos aramados com fuzis. Os investigadores identificaram algumas práticas similares às que são aprendidas nas forças de segurança:

rotina de exercícios físicos;
técnicas de progressão em terrenos conflagrados;
reação a emboscadas;
deslocamento no escuro;
simulação com explosões de bombas.

Escalada da violência
Robson Rodrigues foi comandante do Batalhão da Polícia Militar na Maré e hoje faz parte de análise de violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ao analisar as imagens, ele identificou a racionalidade que o crime tem utilizado para proteger seus territórios e explicou que faz diferença para as forças de segurança enfrentar bandidos armados e treinados nesse nível.

“Isso acaba escalando os níveis de violência porque você porque, para lidar com as forças de segurança e, muitas vezes as mais treinadas como Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) e Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), você investe em determinado tipo de treinamento. Como resposta, a segurança pública também investe em mais treinamento, mais arma, mais guerra. Isso não vai solucionar um problema”, explica.

Para Rodrigues, se o entendimento é para investir em força, as forças de segurança podem deixar de investir na inteligência para encontrar melhores momentos e formas de se controlar esse tipo de atividade.

Território controlado pelo crime
O Complexo da Maré é apontado como centro de distribuição de armas e drogas para outros pontos da cidade. As imagens obtidas pela polícia mostram vários pontos de venda e moradores sendo obrigados a conviver silenciosamente com a violência.

“Eles que impõem a lei. Toda semana é um morto”, diz um morador que não quis se identificar.

O Estado já fez tentativas de retomar o controle sobre a Maré, mas fracassou em todas. Em 2014 e 2015, o Exército e a Marinha ocuparam o conjunto de favelas por 14 meses com a missão de pacificar a região para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

A operação custou R$ 600 milhões, mas saíram sem conseguir nada. Ao todo, 27 militares foram feridos, um assassinado e o autor do crime nunca foi encontrado.

Na investigação atual, a polícia conseguiu montar o organograma de cada quadrilha e identificar 1.125 pessoas que fazem parte dos grupos de traficantes e milicianos que dominam o complexo. Todos foram indiciados por uma série de crimes, como tráfico, associação para o tráfico e organização criminosa.

“A nossa prioridade ali era identificação dos elementos, qualificar, fazer todo organograma dessa quadrilha pra poder indiciá-los e remeter à Justiça pra que houvesse a denúncia e o pedido de prisão, como foi feito. Havia uma série de restrições para atuação lá, que além de atrapalharem a investigação, causaria riscos a integridade da sociedade e dos policiais que atuariam e a gente preferiu atuar com investigação e inteligência”, conta o delegado.

As últimas gravações feitas pela investigação aconteceram no fim de 2022.

Na noite deste sábado (23), o Fantástico foi até a comunidade para fazer imagens dos mesmos locais. Não havia treinamento, mas os bandidos continuavam lá e fortemente armados, como sempre.

Perto de um baile, ao menos 15 traficantes com fuzis. Um deles com uma metralhadora .50, capaz de atravessar veículos blindados.

Crédito: g1.globo.com

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