Justiça manda soltar jovem preso por engano após ser confundido com miliciano de Caxias. Ele é cientista de dados formado pela PUC-RJ

A Justiça do Rio de Janeiro determinou a soltura do cientista de dados Raoni Lázaro Barbosa, preso por engano, há mais de 20 dias, após ser confundido com um miliciano de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Segundo a família e a defesa do rapaz, houve um erro na identificação do homem, feita apenas por reconhecimento de fotos.

Raoni é um jovem cientista de dados, formado pela PUC-Rio, com especialização no MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. Ele é casado há quatro anos e há quase um ano começou no emprego dos sonhos, em uma multinacional.

Mas o mundo dele e da esposa, Erica, virou de cabeça pra baixo no dia 17 de agosto. Raoni foi preso em uma operação da Polícia Civil, conduzida pela delegada assistente Thaianne Barbosa, da Draco.

Ele foi acusado de fazer parte de uma milícia em Duque de Caxias – o que, segundo a defesa do homem, foi um erro da polícia.

No inquérito, a polícia acusa Raoni de ser responsável pela cobrança de taxas de moradores e de comerciantes de Caxias em um grupo de milicianos que incluía policiais militares.

A defesa afirma que Raoni e a esposa moram em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, e nunca viveram em Duque de Caxias. O reconhecimento de Raoni foi feito por foto, uma prática que não é prevista em lei brasileira.

A imagem usada na investigação foi a de um homem identificado como Raony, com “y”, também conhecido como Gago, e apontado como integrante da milícia de Duque de Caxias.

A defesa e a família apontam que a única semelhança entre os dois é a cor da pele. Dados do Colégio Nacional de defensores públicos-gerais, de 2012 a 2020 90 pessoas foram presas injustamente baseadas no reconhecimento por foto.

Só no Rio, foram 73 – e 81% das pessoas apontadas como suspeitas nesses inquéritos são negras. O Conselho Nacional de Justiça criou na última semana um grupo de trabalho para elaborar protocolos objetivos para a identificação por foto.

Agora, a família teme pelo futuro de Raoni.

“A gente não sabe como é que vai ser daqui pra frente. não sabe como é que vai ser com relação ao emprego dele, se ele vai perder emprego, se ele vai deixar de poder viajar”, afirmou Érica.

O que afirma a polícia

A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas, a Draco, informou que as testemunhas desfizeram o reconhecimento e que a delegada responsável pelo caso já pediu à Justiça a revogação da prisão de Raoni Lázaro Barbosa.

A Secretaria de Polícia Civil afirmou que instaurou uma sindicância interna para apurar o caso, porque a orientação da atual gestão da pasta é para que o reconhecimento fotográfico seja um dos elementos do inquérito policial, e não o único fator determinante para pedir a prisão de suspeitos.

Crédito: g1.globo.com

É solto no Rio, mototaxista preso injustamente após reconhecimento por foto em delegacia

Sete meses após ser acusado de um roubo a pedestre, em Niterói, o mototaxista Marcos Antônio dos Santos Veiga, de 36 anos, foi solto. Isso porque ficou comprovado, após audiência na 4ª Vara Criminal de Niterói, que a vítima não reconheceu Marcos Antônio e alegou que os ladrões estavam de capacete e máscara.

O juiz João Guilherme Chaves Rosas Filho absolveu o acusado e expediu o alvará de soltura, que foi cumprido na quarta-feira (17).

O depoimento da vítima de roubo dizendo que os ladrões que a abordaram estavam de máscara e capacete já tinha sido dado durante o registro de ocorrência na 76ª DP. Mesmo assim a delegacia encaminhou a investigação por meio de um reconhecimento pelo álbum de fotografia da polícia.

Em entrevista ao portal G1, Marcos negou o crime e desabafou sobre a agonia de estar preso injustamente.

“Você sabe o que é cumprir uma pena sem ter culpa? Todo dia eu acordava, olhava para o céu e perguntava: ‘Meu Deus, quando é que você vai me tirar daqui? ”.

“Minha foto estava lá porque eu tenho passagem na polícia. Fui pego por tráfico quando tinha 25 anos. Mas cumpri minha pena e saí pela porta da frente da cadeia. Desde então, só faço trabalhar e cuidar dos meus filhos”, acrescentou o mototaxista, que é pai de Antônia, de 4 anos, e Gael, de 3.

Marcos foi preso um dia antes do aniversário da filha, em agosto do ano passado, quando levava a mulher à delegacia para resolver uma ocorrência de estelionato.

“Minha mulher comprou um celular, que não entregaram. Ela registrou queixa e, quando o delegado ligou para ela, achamos que era para resolver isso. Fui com ela à delegacia e, ao chegar lá, recebi a voz de prisão”, lembra.

Desde então, foram sete meses no sistema carcerário do estado, enfrentando superlotação, medo de pegar Covid e às vezes comendo comida estragada. Ao chegar em casa e receber o abraço dos filhos, Marcos só pensa em seguir em frente.

“A preguiça reflete parte do sistema. Polícia investiga pouco, juiz prende, muitas vezes sem sequer ler o processo, e o Ministério Público contribui pouco com a investigação. A liberdade deveria ser regra e a prisão exceção, mas, como no caso do Marcos e de tantos outros, vemos a total inversão”, disse o advogado João Luiz Seabra Varella, que defendeu Marcos Antônio.

Fonte: osaogoncalo