No imaginário popular, existe um sotaque “carioca” clássico: o do “S” com som de “X”, que ecoa entre praias, morros e novelas. Mas basta atravessar a ponte, subir a serra, seguir os trilhos rumo ao Norte ou descer pelo Vale do Paraíba para perceber que falamos vários “idiomas” dentro do mesmo território.
O chiado do carioca não é uníssono em todo o território do estado por uma questão histórica: ele é uma herança colonial, como explica o professor titular de Língua Portuguesa da Universidade Federal Fluminense (UFF) Dante Lucchesi. “Em Portugal, eles falam muito chiado, inclusive em contextos não usados no Rio. A característica atingiu essa posição de destaque na capital porque a Corte portuguesa se instalou lá. Consequentemente, o interior acaba tendo mais influência dos dialetos fronteiriços”, afirmou.
Enquanto capital do Império e da República, a cidade do Rio de Janeiro exerceu por muito tempo sua influência ao longo do país, sendo uma espécie de vitrine cultural. Exportou não só produtos e serviços, mas também a forma de falar. A mídia teve papel fundamental para a criação desta “voz oficial” do Rio para o Brasil.
As divisas do território fluminense com Minas Gerais e Espírito Santo ajudaram a construir outras identidades linguísticas. Em muitas cidades, era mais fácil estabelecer relações econômicas e familiares com estados vizinhos do que com a própria capital.
É o caso de Varre-Sai, que fica a quase 300km de distância da capital e faz divisa com Minas Gerais. A cidade é a mais distante do Centro do Rio de Janeiro e integra o contínuo linguístico do Noroeste Fluminense. Lá, são destaque os traços fonéticos mineiros, como o “R” caipira puxado, ouvido em palavras como “porta”. A entonação é mais cadenciada em relação à fala acelerada do carioca, e o “S” com som de “X” dá lugar a uma pronúncia mais seca e frontal, sem o chiado característico da capital.
O Estado do Rio de Janeiro não se expressa em coro, ele fala em polifonia. Cada região guarda variações próprias, ritmos particulares e memórias que sobreviveram na maneira como seus habitantes pronunciam as palavras.
Fonte:texto adaptado/Original de Madu Costa e Octacílio Barbosa/Alerj
Assim que ler a matéria, deixe seu comentário e nos siga nas redes sociais.