A FÉ ORIGINÁRIA E DESCONHECIDA DO ORIENTE CRISTÃO
Chega a ser triste pensar que após mais de dois mil anos o Cristianismo do Oriente continua sendo tão ignorado por nós, brasileiros e latinos…
Por que Leão XIV escolheu para sua primeira viagem a Túrquia? Um repórter do Vaticano escreveu: “A visita à Turquia é uma viagem às fontes da fé, entre as raízes do Cristianismo”. Os pontos essenciais da nossa fé cristã encontraram ali a sua formulação dogmática nos Concílios ecumênicos realizados em Istambul, ou nas cidades vizinhas, entre elas Niceia e Éfeso nos primeiros oito séculos da era cristã. Foi o que recordou João Paulo II na homilia na Catedral do Espírito Santo em 1979: “Como não lembrar com emoção os padres da Igreja do Oriente, Pastores e Doutores, nascidos nesta região”.
Ali está o berço da nossa fé cristológica comum. Atualmente ali também se encontra (desde o século IV) a Sede do Cristianismo do Oriente com o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla!
Por que Leão XIV irá a Turquia?
Você lembra que Jesus nasceu no Oriente Médio? Você sabia que a Igreja também veio do Oriente? Já ouviu falar do Império Cristão do Oriente, de Constantinopla? Você sabe onde ficam as sete Igrejas mencionadas no Apocalipse? Nem só de voos de balões a Turquia vive…
É incrível como desconhecemos a história genuína do Cristianismo por desconhecermos, quase por completo, a história do Oriente cristão! Lembremos que a Salvação veio do Oriente! As primeiras decisões de ordem pastoral e teológica, aconteceram, justamente através dos sete primeiros concílios, convocados, organizados e concluídos pela Igreja do Oriente. O primeiro deles aconteceu em Niceia, no ano de 325, quando o Cristianismo precisou definir teologicamente a divindade de Jesus Cristo. O Credo (profissão de fé) que professamos hoje de lá nos veio!!!
Este Ano, o Concílio Ecumênico de Niceia, o primeiro da história do Cristianismo, completa 1700 anos! A Capital do Império Cristão foi Constantinopla, na atual Turquia. Quando você deseja peregrinar até as fontes do cristianismo primitivo você vai ao Oriente médio, por exemplo.
Em Novembro do ano passado, o Papa Francisco recebeu um convite do Patriarca Bartolomeu de Constantinopla (atual Turquia) para visitar Iznik, cidade da Turquia que corresponde à antiga Niceia. Havia um desejo comum, sobretudo, de que a Páscoa Católica Latina e Católica Ortodoxa seguirem um único calendário em prol de uma data comum, como aconteceu, providencialmente este ano, às vésperas da morte do Bispo de Roma…
Por que o Papa viajará para este lugar tantas vezes negligenciado aos olhos da hodierna sociedade? O que o Espírito diz à Igreja?
Vejam, o que o próprio Papa disse no último dia 14 de Maio, aos representantes das Igrejas Ortodoxas do Oriente: “A Igreja precisa de vós! Como é grande a contribuição que o Oriente cristão nos pode oferecer hoje! Quanta necessidade temos de recuperar o sentido do mistério, tão vivo nas vossas liturgias, que abrangem a pessoa humana na sua totalidade, cantam a beleza da salvação e suscitam o enlevo pela grandeza divina que abraça a pequenez humana! E como é importante redescobrir, também no Ocidente cristão, o sentido do primado de Deus, o valor da mistagogia, da intercessão incessante, da penitência, do jejum, do pranto pelos pecados, próprios e de toda a humanidade, tão típicos das espiritualidades orientais! Por isso, é fundamental valorizar as vossas tradições sem as diluir, talvez por praticidade e comodidade, para que não sejam corrompidas por um espírito consumista e utilitarista. As vossas espiritualidades, antigas e sempre novas, são medicinais.”
No documento divulgado este domingo, solenidade de Cristo Rei, o bispo de Roma escreveu que “na unidade da fé, proclamada desde os primórdios da Igreja, os cristãos são chamados a caminhar em concórdia, guardando e transmitindo com amor e alegria o dom recebido”.
Estamos no Ocidente, mas não ignoremos o oriente! Estudamos a história do ocidente, mas não neguemos o berço da civilização e do Cristianismo. Estudamos a teologia latina, mas não nos fechemos à teologia oriental! O gesto de Leão XIV fala mais do que muitas encíclicas, fala de retorno ao Cristianismo primitivo, a ortodoxia, a possibilidade de avivamento do primeiro amor para o ocidente, de busca de conversão e esperança renovada de salvação.
Por Padre Eduardo Braga, Patriarcado Eslavo nas Américas